O almoço de hoje chez Nicole, uma senhora muito querida, mãe de uma amiga nossa muito querida também, foi agressivamente copioso e generosamente apaladado e terminou, depois de um café com um cheirinho, com o serviço bastante liberal de um Calvados, um genuíno artefacto de extracção rural. A chuva estragou os planos de visita ao roseiral local.

Agora, estou sentado não sei onde, algures no centro de Paris, à espera de um leite aromatizado com baunilha. A música cá dentro é uma rockalhada quase aceitável. Lá fora, o bater inofensivo de pingos de uma chuva de molha-tolos. Enquanto a Graça prepara a sua conferência de amanhã, eu escrevo postais de Cracóvia para os enviar de Paris a todos os destinatários em geral e a ninguém em particular.

Estava, portanto, há uns dias atrás em Cracóvia. Nesse dia não saí cedo, mas também não era tarde. Fui andando à procura da rua Copernika: desorientei-me, desnorteei-me, fiquei sem leste nem Sul. Ao contrário do dia anterior, fazia um sol espectacular e o dia aquecera. Pensava eu que, por ser a Polónia um país tão católico, as cracovianas, por justificado pudor, só vestiam calças. Com a vinda do sol e do bom tempo, muitas foram às arcas desenterrar as mini-saias do Verão anterior e andavam por toda a cidade a mostrar a esbelteza de um par de pernas eslavo revelador de um dos momentos mais altos de criatividade do deus que lhes deu vida e em que acreditam. Perto da universidade, abordei duas transeuntes que, de facto, dispunham de umas longas pernas bem torneadas, um sorriso franco e descontraído e uma grande disponibilidade para falar inglês e ajudar: realmente, garantiram-me, eu estava na Planty, mas do lado errado. Re-situei-me, apanhei a rua em causa e lá fui. Passei por baixo da linha dos comboios; o colégio jesuíta ficou para trás à minha esquerda; à direita, o Lazareto e , depois, vi desfilarem vários edifícios da universidade de medicina ou hospital médico. A entrada do Jardim Botânico, se não me falha a memória, o 27 da rua Copernika, mal se percebia.

Ficámos ali, eu e a corpulenta senhora da recepção, a gesticular sem nos compreendermos. Valeu-nos uma professora que ia a sair com um bando de pipilantes e saltitantes criancinhas. Arranhava um inglês ao nível do meu. Ajudou-me a descodificar a longa lista em polaco com dezenas de preços e percebi que o que me dizia respeito era um bilhete individual para adulto, justamente o da primeira linha. Também compreendi que, trespassada a porta de entrada teria acesso a todos os locais excepto os que fossem expressamente proibidos, caso em que haveria sempre, para meu descanso, uma placa em polaco a avisar. Questionando sobre outro aviso da vitrina, com um palavreado em que sobressaía, sem sombra de dúvida, a palavra fotografia, descansaram-me dizendo, a professora num inglês tão bom como o meu, e a funcionária da recepção que a corroborava em polaco e com vigorosos acenos de ombros e de cabeça, que me era permitido tirar as fotografias que quisesse. É que havia o hábito desagradável de os casalinhos de noivos e respectivas comitivas irem tirar fotografias para o jardim e a direcção não permitia abusos desses. Como eu não tinha nem ar nem idade para me ir a casar, armei um sorriso de contentamento secundado pelos mesmos sorrisos igualmente boçais da professora e da recepcionista. Lá nos despedimos, expressando-nos os três com frases inacabadas, misturando vocábulos eslavos, germânicos, latinos e outros indefinidos, e terminando com expressivos grunhidos que, creio, provêm do fundo lexical da vetusta língua indo-europeia que reside alojado, ou no nosso inconsciente colectivo, ou em genes compartilhados.

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Abri a porta de entrada do edifício central e de pronto surgiu do interior uma contínua que me barrou a entrada. Apontou na direcção das minhas costas e disse na sua algaraviada algo que interpretei como sendo a localização das toaletes. Não, eu não queria toaletes, queria bisbilhotar no interior do edifício. Felizmente, ia a entrar uma senhora de idade respeitável e tentei a minha sorte. Falava francês, era de uma geração em que se aprendia línguas estrangeiras com o intuito de vir a ler boa literatura, adquirir boas maneiras e frequentar círculos sociais decentes. O crioulo germânico do francês que se aprende nos dias de hoje só serve para circular globalmente de mochila às costas, beber umas jolas e fumar umas passas ao som de umas batucadas horríveis a que se tem o desplante de chamar música. Falava, como ia dizendo, francês (e peço desculpa pelo desabafo de quem acredita que chegámos ao fim da civilização e estamos perante uma catástrofe de dimensões apocalípticas). Conferenciou a respeitável senhora com a funcionária que percebeu a minha questão, arvorou um sorriso alarve de quem vê finalmente reconhecido o valor excelso da colecção de preciosidades de que é guardiã e desimpediu a entrada com rituais de recepção diplomática. Entrei pomposamente no museu. Não percebi rigorosamente nada de que materiais se tratava, qual a sua proveniência ou o período geológico em que representavam, mas a documentação era sobeja e profusa num polaco que me cheirava a rendilhada prosa maneirista de um século passado.

Sai como entrei, isto é, pela porta, depois de tirar algumas fotografias para memória futura. A seguir, em frente, desenhava-se o vasto jardim botânico cuja descrição farei com todo o cuidado na secção de Visitas do meu Portal das Angiospérmicas.

Saí, já era tarde. Fui-me perder novamente na cidadela, passando por todo o tipo de lugares já conhecidos. Comi uns pieroguis numa banca do mercado e noutra banca servi-me de uma cerveja tirada à pressão para um longo e largo copo de plástico. Mais dado ao culto Mediterrânico de Baco, não sou grande apreciador de cerveja. Mas esta tinha um não sei quê de fragrância a ervas especiosas e um travo que se harmonizava com o meu estado de espírito. A frescura harmonizava-se com o estado das minhas pernas, tão cheias de ácido láctico que pareciam querer atingir o rigor mortis.

Na praça central estava tudo em festa.  Num enorme palco armado num dos topos dançavam graciosas donzelas e donzéis vestidas de fatiotas, não sei se evocativas da história local, se representativas do seu folclore. Era bonito. Fiquei, apoiando-me, ora numa perna, ora noutra.

Postais DSC 1485

O tempo venceu-me e a Graça já deveria estar à minha espera. Perdi-me novamente em direcção ao hotel.

Comentários   
0 #1 Gasolina 26-05-2016 12:41
Foi uma sorte não teres sido preso. Que estas coisas da língua, já se sabe, quando trava pode dar num erro diplomático. Mas fico contente que te tenhas desforrado nas comidinhas e claro, nas bebidas, mesmo não sendo apreciador das de pressão. Lamento a crise intestinal, mas não creio que a gastronomia seja a autora de tal desarranjo; Levo-o mais para a dose exagerada de muito edifício eclesiástico e seus habitantes, é que todos eles são muito dados ao mofo e destas culturas é sabido o prejuízo para a saúde. Folgo em saber-te em Paris, finalmente. Ou nem tanto a esta data, quem sabe?! Que estejas vivo e de poder de todas as tuas funções para memória futura, como o dizes.
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