Estórias da floresta

in O Tremontelo

14 de fevereiro de 2006

posted by Perdido @ 22:29

As histórias muito profundas, com mensagem subtil, e dotadas daquela capacidade para deixar marcas indeléveis no inconsciente docilmente cerúleo das criancinhas, as que ainda são, mais aquelas que já fomos, ocorrem invariavelmente na floresta.

Para sustentar o meu argumento, apresentarei alguns exemplos. Mas, primeiro, vejamos aonde pretendo chegar: 

O que é próprio da criança, na sua essência de cria doméstica, é estar em casa (em latim: domui) ou nas suas imediações. Onde começam ou acabam essas imediações é coisa que certamente todas as crianças sabem, embora se julgue, juízo fundado na observação comum, que à medida que o tempo passa essas imediações vão-se afastando progressivamente da casa! A casa é o abrigo, a protecção, o amparo; é também o lar, o fogo, o aconchego; é ainda o interior, o íntimo, o familiar, o conhecido. No jogo das oposições, o exterior é o desabrigado, desprotegido, o à mercê do acaso; é a geada, a escuridão e o desconforto; é o devassado, o desconhecido, o arriscado.

Em todas as histórias há uma criança que se perde (errare humanum est!). E nessas histórias erráticas é, geralmente, na floresta que as crianças se dão conta de estarem perdidas. A floresta por si só é um perigo: basta imaginar todas aquelas árvores com troncos retorcidos, quais caras engelhadas de bruxas velhas (e certamente más! ... "rebola cabacinha, rebola cabação"), com nódulos que se assemelham a olhos esbugalhados. Mas a floresta encobre também outros perigos e sustos: lobos maus e raposas prontos a darem a primeira ferroada na perna tenrinha da criança perdida, cogumelos venenosos, serpentes que hipnotizam com o olhar, corujas agoirentas... Finalmente, a criança perdida encontra o seu porto de salvação novamente numa casa, mas agora implantada no seio da floresta: a casa dos sete anões, a casa da avozinha, a casinha de chocolate, etc.

 Prefiro a todas elas a do capuchinho, não só pela diversidade dos ingredientes, como pela sua inverosimilhança.

Cada parte da história é uma história completa, com ensinamentos, moral e tudo:

O capuchinho prepara o lanche para a avó comer (embora, paradoxalmente, seja a avó, no fim da história, que é comida). Imaginam a madrasta da Branca de Neve a preparar a maçã para a afilhada e esta acabar por ser devorada por uma vara de javalis antes que os anões possam acudir em sua defesa?

Por outro lado, o lobo mau é travesti, ou seja, veste-se daquilo que não deve, e faz vingar os seus intentos pela dissimulação, pelo ardil, o que é próprio dos caçadores e assim, pela inversão da comida, pela inversão dos caracteres do género e da espécie e pela inversão dos papéis, a história atinge o auge do seu poder emocionante.

 

A possibilidade da história, e é isso que nos atrai, advém da sua completa impossibilidade, da impossibilidade que está para além do espelho, e o para além do espelho não é outra coisa senão a floresta.

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