A Dama do Lago

20 de junho de 2007

– Que susto! Que grande animal és. Assustaste-me com tamanha sombra… 

– Ah! Eu sou um bípede chamado humano. Sou um homem.

– Muito prazer, eu sou a Dama do Lago.
– Ah ah ah! Mangas comigo?
– Ai! És sempre assim, grosseirão e insensível com as senhoras? Primeiro, apareces sem te apresentares, com esses modos pouco galantes. Depois, zombas do que te digo, deixando no ar uma vaga sugestão de dúvida. Como se a minha palavra para ti de nada valesse…

– As minhas desculpas, nobre senhora. Se apareci assim, sem me anunciar, é porque cuidava estar sozinho. Sorte foi não ter libertado aqueles humaníssimos sons corporais, muitas vezes acompanhados de cheiros detestáveis e severamente reprovados pelos sócios humanos.
– Penso que sei do que estás a falar; os gatos fazem muito essas coisas quando se debruçam no lago para se dessedentarem. Isso não é nada que me impressione.
– É claro que és uma dama. Permita-me, Vossa Senhoria, que lhe tire o chapéu e lhe renda as minhas homenagens. Agora, do lago … com franqueza! Convenhamos que é demais.
– Não tem nada de mais. Nasci aqui no lago e aqui estou desde que o mundo é mundo.
– Ai, essa é que não: perdoa-me, mas eu fiz o lago só há 3 anos e tu apareceste por cá há uns dois meses vinda eu sei lá de onde.
– Mas o lago não está cá sempre? - Perguntou a chorar – E eu não nasci aqui?
– Não – disse baixinho, incomodado como fico sempre na presença de choros femininos – O lago não está aí sempre. E eu julgava que tivesses aparecido por aí aos saltinhos vinda de outro sítio qualquer. Se calhar és a única sobrevivente daqueles “peixes-cabeçudos” que trouxe numa garrafa da terra do Zé Paulo. Sei lá. Do nada não nasceste tu, com certeza.
– Pensava que eu e o lago fazíamos um. Afinal, sou apenas uma passageira mais de um barco que não vai para lado nenhum. Estou chocada e profundamente triste.
– Não vale a pena, duquesa, afinal todos nós viajamos à boleia numa nave perdida no nada, onde entramos e de onde saímos sem ninguém a perguntar-nos qual é a nossa vontade.

– Triste natureza a nossa, destino cruel, vida desprovida de qualquer valia – proferiu em tom declamatório.
– Hum! Olha que a vida são dois dias e já lá vão três – Disse para a confortar, usando a estafada pilhéria dos meus tempos de escola e pensando para com os meus botões “não só não vai perceber a graça, como a vai confundir”.
– Grande aritmética, sim senhor – interpelou a cobra branca, que entretanto aparecera por ali – Eu só tinha um dedo quando aprendi a contar.

– Ah! És tu, salsicha rastejante? Vens aqui para me examinar?

– Não, mas não podia deixar de te ouvir. Não imaginas como me maravilha esse teu jeito para entreter as senhoras com cantigas da treta, sabendo que é a melodia da tua voz que as encanta.
– Cada um tem os seus encantos. Não te vejo muitas vezes a fixar os olhos no meu olhar para me aturdir? E porque te enovelas em sucessivos anéis, sabendo o poder sensual que as tuas curvas exercem numa alma sensível e desamparada?
– Deixa-te de habilidades e de conversas de serão de aldeia. Comigo não pega. Vira-te antes para aquela, que tem a mania que é nobre e dona da choldra de lago que fizeste. - E, dizendo isto, virou-me as costas, e pôs-se a andar dali para fora.

Foi então que, reparando na rã, me apaixonei por aquelas perninhas curtas e gorduchas. Que saudades tenho naqueles dias em que me ausento e passo a contar os que faltam pelos dedos.

Quando lá estou, a apanhar mato, a regar ou a podar rosas, ouço-a a coaxar. Parece que se esganiça toda para se fazer ouvir. Quando é noite sinto-me a abafar e abro as portadas para vir ao alpendre apanhar ar. Pressentindo a minha presença, a minha dama emite gritos lancinantes que se perdem na noite entre as estrelas.

E eu sei que não estou só num universo vazio.

E que a vida não é uma viagem à toa no meio do nada.

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