Quanto à empatia de que agora tanto se fala nada sei. Andei a interrogar-me sobre o seu significado percebendo que a palavra nada tinha a ver com o “empathos” grego e fui dar, ao cabo de um extenuante exercício de elaboração mental, à presunção de que a dita palavra poderia ser a crase de “empada” com “tia”.

Quanto a empadas, há que distinguir as empadinhas dos empadões. Bem! É tudo questão de forma e tamanho, mas vai dar tudo ao mesmo: uma mistela empanada, embrulhada em massa de pão. São próximas do pastel, uma misturada de qualquer coisa com massa de pão, tal como o pastel de bacalhau, a que se dá a forma com duas colheres (de cozinha, claro). Perdi algum tempo a reflectir sobre a razão por que o pastel de nata é um pastel e cheguei à conclusão de que é antes uma empadinha sem tampa. Uma falsificação que não fica por aqui. É uma dupla falsificação porque a nata também não é nata. Há quem diga que é um pastel de nada. Mas não é tudo feito de nada?

Na empatia, que tem, como se viu, todas estas mixórdias pasteleiras, há também a questão das tias. Não se trata, claro, das irmãs ou cunhadas dos nossos pais. Ou das tias espanholas, termo que poderíamos traduzir por tipas ou gajas, o que seria uma foleirice inaceitável. As tias que cabem nesta conversa conheci algumas quando trabalhei na Lapa, um sítio chiquérrimo, em lojas que não são pastelarias mas onde há pastéis e uma intensa vida social, uma espécie de tabernas asseadas onde só se bebe chá e se fala muito partilhando os pequenos segredos da Sociedade com ésse maiúsculo. São, geralmente, classe média alta, católicas, meia idade, solteironas, bem conservadas de saúde e de aspecto, blasées (no sentido em que se interessam por tudo e por nada, menos por assuntos sérios), as suas frases saem com uma melodia inconfundível e as palavras têm aquele acento típico dito de Cascais, e têm imensos dotes pasteleiros.

Temos aqui os ingredientes para compreender o que é, na realidade, a empatia. Agora, misture-se tudo até se formar uma massa homogénea e vai ao forno em lume brando. Em forminhas ou num tabuleiro, é como se queira!

Comentários   
0 #3 Graça 17-04-2020 09:28
Maravilhosa lição gastronómico-lexical criada com tanta empatia, e tão bem recheada de sabores doces e salgados... :P
E é intemporal - li já tarde mas tanto faz.
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0 #2 Rui Fernandes 20-02-2020 10:00
Obrigado pelo teu comentário, Teresa.
Ainda bem que assim foi, o teres-te espantado, num mundo e num tempo monótonos em que a gente já quase não se espanta com nada. Quando muito, há sobressaltos, mas isso ainda é só no ninho de vespas do Face Book. Quanto ao queirosiano, sinto isso como um elogio. É de longe o meu autor preferido.
Tem tudo a ver com o pathos: a empatia, a simpatia, a antipatia. Isto é, sofrimento e passividade. Eu não gosto destas tretas, prefiro os sentimentos alegres e activos. Mas não é altura de falarmos de Espinosa.
Queres uma receita de pastel de nata? Compro-os todas as semanas às dúzias e congelo-os. Como todos os dias dois ao serão. Sim, congelados!
PS.: Teresa, estás registada (havia um problema com o teu registo que já resolvi). Doravante, só tens que te lembrar da password que usaste.
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+1 #1 TeresaDurães 15-02-2020 14:36
:D :D :D
Espantada com este post! Ora, algo que nunca pensei vir ler aqui, uma descrição queirosiana!

Empatia (do grego Empátheia, paixão, segundo o priberan)
- Não me parece que não a tenhas, mas isso sou cá eu a pensar!

Ah! Não disseques o pastel de nata! É tão bom!

(isto de ter de se registar está-me a dificultar a vida...)
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